Clube da Luta (1999) e Bailes Funk


Quando se fala de filmes baseados em livros, sempre rola aquele papo: "o livro é melhor do que o filme". Eu acho uma comparação simplista a começar pelo fato de serem mídias diferentes. No mais, as vezes deixando esse preconceito de lado nós ganhamos muito. Como é o meu caso com "Clube da luta."

A primeira vez que vi o filme, não gostei. Eu ainda estava na minha época pipocão: qualquer filme um pouquinho fora do mainstream era chato. Na época eu achei a história difícil e criei uma antipatia repugnante à Durden (Brad Pitt) e ao personagem sem nome do Edward Norton. O flashback "tadaaaaaammm! Te peguei!" me deixou puto (coisa de pós-adolescente). Talvez por não ter percebido o lance desde o começo. Enfim..."Clube da luta" ficou empoeirado na mente junto com David Lynch e outros, sob a etiqueta: "Nunca mais perco meu tempo com isso".

----Aí a gente cresce, amadurece----

Esses dias peguei o livro que deu origem ao filme e comecei a ler. Não parei. Acho que foi um dos que li mais rápido na vida. No livro se tem uma idéia muito mais ampla do significado anárquico contra a relações de poder que a gente está submetido no dia a dia.

Antes, imaturo, eu ligava o "foda-se" pra metáforas da vida no cinema. Agora eu procuro por elas. E Chuck Palahniuk (autor do livro) me deu um motivo ainda maior pra rever Pitt e Norton. No posfácio do livro, ele conta que havia um livro:

"Before nightclub fist fighting in Brazil, where some nights young men would fight to their deaths..."
["Antes de brigas em boates no Brasil, onde em algumas noites jovens homens lutariam até a morte..."]
É óbvio que os "bailes de corredor", no Rio, não surgiram por causa do filme. Mas ele tem razão em compará-los (suponho q sejam estes bailes) pela lógica. Aí eu vi o filme de novo. Na tela e na memória.

Em Magé, minha cidade natal, tem um clube chamado Mageense, onde rolavam (rolam?) bailes funk. Na época do filme, era pra lá que eu ia todo fim de semana. Lá na cidade do Rio, já haviam bailes onde galeras de locais diferentes eram divididas por um espaço vazio (o corredor) em lados (A e B). Em um certo momento, os dois lados eram incentivados a gladiar. E brigavam feio. Até que a ordem fosse dada pra parar. Aí paravam. Se não parassem, seriam punidos (com mais porrada, dos seguranças). Tinha uma certa ordem, num era confusão. Assim como os Clubes da Luta. Então, começaram a implantar os corredores tb.

Foi ali que eu conheci - sem saber - Tyler Durdens.

O salão do baile era sempre escuro, como os galpões do filme. Amigos chegavam e confraternizavam. Se cumprimentavam:

- E aí, te estraguei semana passada, hein?, dizia um com cicatrizes recentes na testa.
- Hahaha...quero ver tu tirar essa onda daqui a pouco. Vai ter a forra, dizia o outro apontando pro espaço vazio do dente.
Em certo momento, o DJ tocava a música pra começar a pancadaria.


Clique aqui pra ouvir.

Os amigos deixavam as camisas com as namoradas, apertavam mãos e iam pra lados diferentes do corredor. E, no meio da multidão feroz, gladiavam. E brigavam feio. Até que era dada a ordem pra parar. Aí voltavam e batiam papo. O que acontecia no corredor, ficava no corredor. Te lembra alguma regra de um certo filme?

É claro que há diferenças. Nos bailes de corredor (dentro e fora dos clubes/boates) haviam um número crescente de gangues rivais, assassinatos, covardias (um monte batendo em um) e por isso foram proibidos (talvez ainda ocorram em certos lugares). Quando as brigas foram pras ruas a coisa começou a desandar. Perdeu-se o controle. Como no filme. Mas, tb como em Clube da Luta, o que haviam eram pessoas comuns, que no dia-a-dia eram nada além de peças do sistema. Pessoas que naquele momento eram heróis, ídolos. Até hoje eu lembro do nome de uns lendários em Magé. Ali no corredor eles tinham o que não tinham na vida: poder e respeito.

Assim como Durden e o personagem de Norton. Então eu precisei crescer, ler o livro e rever o filme pra ver que o Clube da Luta já fazia parte da minha vida, de certo modo.

"Tadaaaaaam! Te pegamos de novo!",
me zoariam Chuck, Pitt e Norton.

Um comentário:

Lua disse...

Se o pessoal de Magé souber que você escreveu sobre os bailes deles, sabendo que a primeira e a segunda regra do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta, você não vai ter buraco fundo o suficiente pra se esconder...risos.

Meu trabalho de conclusão da matéria "Imagem e Comunicação" lá na pós foi sobre o Fight Club. Peguei por um viés mais psicológico, mas se tu quiser ler qualquer hora dessas, senhor mestrado...risos.

Adorei esse blog, vou pôr nos favoritos! Até fiz um pra mim há um tempo atrás, mas ainda não postei, acredita????

Beijos